Especiais U2


Garotos de Dublin - 1960 a 1976
Under a Blood Red Sky
Rattle And Hum & Lovetown Tour - 1988/1990
Zooropa: Tudo sobre o disco
Tempo de descanso: 1994-1995

Garotos de Dublin - U2 1960 a 1976


Podem reclamar, urrar e negar, mas fatos são fatos: se os Beatles dominaram completamente os anos 60, ninguém foi maior nos anos 80 e 90 do que esse quarteto de Dublin. Não tem para Nirvana, Smiths, R.E.M., Oasis e quem mais você quiser listar. Fique à vontade... Bono é um cara que muitas vezes deveria ficar com a boca fechada? The Edge toca sempre os mesmos acordes e Larry Mullen Jr. e Adam Clayton formam uma cozinha eficiente, mas sem grande brilho? Sim, sim... mas os Beatles também não eram isso? Um baterista meia-boca, além de um guitarrista limitado, apesar de todo charme místico que tinha (George Harrison)? É claro que a força residia em Paul e John, dois dos maiores gênios da música contemporânea e que jamais terão outra dupla como sombra à altura deles. Mas o U2, como todo grande jogador em uma final, chamou para si o jogo quando todo mundo só malhava a cena rock dos anos 80 e reinventaram o grupo e toda uma audiência sedenta por uma luz-guia. Desde o início ingênuo, passando pelo rock de arena de Rattle and Hum, até deixarem meio mundo de queixo caído com Achtung Baby e Zooropa, eles nunca perderam a majestade e o cetro que herdaram. Se foram herdeiros dignos é uma outra história, mas já que ninguém quis segurar o rojão...

1 – Paul


Que o U2 nasceu devido a um cartaz que o baterista Larry Mullen Jr. colocou no mural da escola, em 1976, todo fã está careca de saber. Mas como foram os primeiros ensaios e quais eram suas vidas antes de se conhecerem? Quantos eram, de fato, irlandeses de nascimento? Essas e algumas outras curiosidades serão agora comentadas. Vamos começar a viagem com um breve resumo de seu mais famoso membro, Bono.

Bono bebêBono é, de fato, um dos irlandeses originais da banda. É também o mais intranqüilo e delinqüente desde garoto. Nascido no dia 10 de maio de 1960, no hospital Rotunda, em Dublin, Paul Hewson, era o segundo filho do casal Bobby e Iris Hewson. Antes dele, o casal já tinha o primogênito Norman, com sete anos. Mais do que irlandeses, os pais do jovem Paul eram dublinenses e haviam passado toda sua vida na cidade.

Fatos contam que Paul era um chorão de marca maior e que os pais só tinham silêncio quando o pequeno ia para cama, quase desmaiando de tanto berrar. Mas nem dormindo dava silêncio já que tinha uma certa tendência para roncar. Quando acordava e começava a urrar, Norman pegava o caçula para dar umas voltas pelo quarteirão, na tentativa de atenuar o trabalho de sua mãe.

Mesmo mais velho, Paul não cessava de chorar. Preocupada, Iris levou-o para um médico, já desesperada. O médico examinou a criança de dois anos. Não encontrou nada, mas por precaução pediu que a mãe o deixasse no hospital durante uma semana para ser observado. Ao final desse período, Iris foi buscá-lo e soube que nada havia de errado com o garoto. Aliás, havia sim: Paul chorava quando as enfermeiras não davam atenção para ele. Resumindo: era um garoto extremamente mimado. A situação chegou a tal ponto que seu pai só conseguia ler o jornal, após chegar do trabalho, dentro de seu carro, já que silêncio para tal seria impossível com o caçula acordado.

Aos três anos, Paul sossegou um pouco e começou a formular suas primeiras frases. Ao invés de berrar passava horas conversando com amigos imaginários no jardim de casa ou mesmo com seu irmão ou com sua mãe. Mas conseguiu pregar bons sustos. Certa vez, seu pai viu o garoto com uma abelha em sua mão e começou a berrar para que Paul se livrasse dela ou poderia ser picado. "Está tudo bem, papai, nós fizemos amizades e estamos apenas conversando", disse o pequeno, com um sorriso no rosto. O pequeno adorava ficar se metendo na vida dos pais, e para conseguirem um pouco de paz, resolveram colocá-lo em uma escola. Matricularam-no na Glasnevin National School, onde começou a viver um dilema. Bobby era católico e Norman tinha sido criado assim. Mas Iris era protestante e pediu que Paul fosse criado sobre sua ótica, o que foi aceito pelo marido. Glasnevin era uma boa escola protestante primária. Nesse tempo, a separação entre as duas religiões na Irlanda estava começando a ficar mais acentuada, mas isso não existia na casa dos Hewson. A melhor amiga de Iris, Onagh Byrne, era católica. Iris e Bobby nunca discutiam sobre religião dentro do lar. Essa proximidade religiosa com a mãe fez de Iris a melhor amiga de seu filho e a única pessoa com quem, de fato, se sentia à vontade. Norman era muito mais velho e seus gostos e amigos totalmente opostos, além de serem completamente distintos em personalidade. Norman era calado, obediente, sério e metódico, enquanto Paul totalmente imprevisível, irônico, desleixado.

Paul não se sentia confortável com as crianças protestantes e isso ficava mais nítido quando ia com Iris aos cultos de domingo. De certa forma se sentia um católico entre todos e acabou aumentando ainda mais sua confusão e causando mais problemas. Aos sete anos, Paul conheceu Derek Rowen e logo viraram grandes amigos. Os dois compartilhavam algumas idéias em comum e possuíam forte independência e personalidade. Derek e Paul adoravam pintar, atividade que faziam na garagem da casa dos Hewson. Mas o auge acontecia quando Clive, irmão mais velho de Derek, pegava os dois e bancava o monitor em aventuras pela vizinhança. Tanta amizade fez que a casa de Derek fosse praticamente seu segundo lar, ainda que fosse pequena e os Rowen tivessem onze filhos.

Paul foi se distanciado de sua família, em especial de seu pai e de seu irmão maior. Norman, nessa época, já tinha um emprego e depois das aulas ia para o trabalho para ajudar nas despesas de casa. Paul era simplesmente visto como o garoto que ainda ia para a escola e que deveria apenas cuidar de seus deveres escolares e não pertubar a mãe durante o dia. Iris sabia que havia essa diferença em casa e tratava de cuidar para que o equilíbrio fosse mantido. Ela tinha uma grande paixão pelos três e era a única que observava e dava atenção para o filho menor. Era Iris quem conversava com Paul, que queria saber dos seus desejos, problemas e frustrações. Aos 11 anos, Paul começou a dar novas dores de cabeça. Ele havia ido para uma nova escola, St. Patrick's Secondary School, o que o desagradou. Paul reclamou para seu pai que queria ir para a mesma instituição em que seu irmão havia estudado. Bobby disse que não seria possível, pois era uma escola muito cara e que Norman tinha conseguido uma bolsa de estudos por sua excelência escolar. E assim foi decidido que ele iria para onde fosse mandado. Mas Paul não era um aluno ruim, pelo contrário. Quando saiu de Glasnevin, era o segundo melhor aluno de sua classe e tinha fama de ser bem comportado, atento, embora um tanto inquieto. O que ele mais gostava realmente eram os passeios que ele fazia pelo parque Griffith, onde ia olhar as garotas e conversar sobre música. Aliás, a única coisa que Paul "aproveitava" de Norman era o seu apurado gosto musical, já que seu irmão tinha em casa discos de Jimi Hendrix, The Who, Rolling Stones e Beatles. Mesmo pequeno, Paul gostava de se juntar aos mais velhos e conversar de "igual para igual" sobre o tema.

Paul odiou a nova escola, a postura com a qual tratavam os protestantes. Como tinha um bom porte físico tentou entrar no time de futebol e de rúgbi, mas acabou optando por jogar xadrez e fez seu pai ensinar os rudimentos do jogo. Revelou-se um jogador talentoso e jogando pelo seu bairro, Ballymun, acabou como vice-campeão em um torneio comunitário com jovens de todos os cantos da Irlanda. Acabou entrando em um clube da cidade, o que aumentou mais sua angústia, já que era preciso atravessar a cidade inteira para treinar e não podia ficar mais com seus amigos. E o ódio à escola ainda era o mesmo. O bom aluno virou um péssimo aluno, que cabulava aulas e era displicente. Ele queria sair de lá, mas não sabia como, até ouvir falar de uma instituição nova que estava sendo inaugurada em Dublin, a Mount Temple. A nova escola causou um frisson ao abolir certas normas do país, já que permitiria que católicos e protestantes estudassem juntos, assim como meninos e meninas. Não haveria uma doutrina específica e eles propunham que tanto crianças de lares humildes como dos mais abastados fossem educados da mesma maneira e até que dividissem carteiras. À princípio, Bobby não concordou em matricular Paul na nova escola, mas acabou sendo convencido por Iris e pelo próprio filho. E Paul amou a nova escola, que era completamente diferente das demais e cheia de possibilidades. Em primeiro lugar, não havia uniforme. Também não havia um grande rigor interno e nas aulas era possível debater idéias com os professores. Paul acabou se tornando um aluno brilhante, especialmente em Inglês, História e em Música. Aproveitava para utilizar todo seu charme, inteligência e arsenal de piadas para conquistar colegas e professores. O local preferido dos alunos nos intervalos era um grande corredor da escola, batizado pelos alunos de "The Mall". Lá era o local onde realmente tudo acontecia, ao menos pelos olhos de Paul. Ali estavam as garotas a serem conquistadas, idéias debatidas e principalmente, o local para que pudesse mostrar todas as suas habilidades. Seu melhor amigo era Reggie Manuel, um menino boa pinta, e que namorava uma garota pela qual Paul tinha verdadeira loucura, Zandra. Paul já tinha sua namorada, Cheryl, mas o que queria mesmo era conquistar a namorada do amigo. Uma de suas melhores idéias para isso foi a de inaugurar um local para que todos dançassem. Paul pensou em uma antiga escola e conseguiu que o reverendo Laing, responsável pelo local, desse sua aprovação. Paul era o principal DJ e em breve Zandra abandonou Reggie para ficar com ele, a quem não considerava tão bonito quanto seu ex-namorado e nem tão interessante. Coisas do coração...

Mas logo ele se cansou de Zandra quando viu a nova garota da escola, Maeve, que de cara odiou o menino, por considerá-lo apenas um agitador. Entretanto, Maeve gostou de seus amigos, e tentou usá-lo para entrar naquela turma. A sorte voltou a brilhar para o menino, já que em algumas aulas estudavam na mesma classe e Maeve começou a reparar que Paul era mais brilhante e articulado do que ela imaginava. A amizade dos dois começou a crescer, as conversas aumentavam e os dois se identificavam muito em suas angústias, em suas esperanças. Logo começaram a namorar seriamente.

Com 14 anos e na nova escola, a vida não poderia ser melhor para o jovem Paul. Na escola certa, com a garota certa, e não sentia mais o medo de ser considerado um peixe fora d'água. Nada poderia atrapalhar sua vida. No verão de 1974, seus pais viajaram para Roma, de férias, e Paul foi para um acampamento de verão em Criccieth, Gales, conhecido como "Bee Dees". Paul foi junto com os irmãos Rowen, Derek e Trevor, seus melhores amigos. Lá, começaram a participar dos estudos dominicais na Associação para Jovens Cristãos, o popular YMCA...
O bom do local é que após as lições, poderiam passar o resto do dia nas praias e lá, Paul conheceu uma garota chamada Mandy, na qual teve um típico romance de férias.

Em setembro daquele ano, Iris e Bobby foram participar das comemorações de 50 anos de casamento do pai de Iris. O que era para ser uma grande festa virou uma tragédia familiar de proporções imensas. No dia seguinte, o pai de Iris não acordava e o descobriram morto. Seu corpo foi enterrado e cremado no Cemitério Militar em Blackhorse. A tragédia ficaria ainda maior quando Iris passou mal no local e desmaiou. Levaram-na correndo ao hospital quando descobriram que Iris sofrera um derrame cerebral. O prognóstico não era nada animador, e no dia 10 de setembro, Iris morreu. Paul, que tanto rezara em casa e tinha certeza que não perderia sua melhor amiga, ficou completamente arrasado. No dia do enterro, Paul trancou-se em seu quarto, chorando e tocando seu violão. Como poderia viver com seu pai e seu irmão, pessoas com quem pouco tinha convivência, sem a mãe por perto? Mas não foi só Paul que sentiu a perda. Tanto seu pai como Norman ficaram dias mudos e deixaram as tarefas de casa com Paul, já que os dois trabalhavam. Paul agora tinha que lavar, esfregar, passar aspirador de pó, descobrir como a máquina de lavar funcionava, entre outras coisas. Sua vida, em questão de dias, virara completamente do avesso. O mundo parecia que voltava a conspirar contra ele...

2 - Larry Mullen Jr.


Larry é o segundo irlandês original do grupo. E o último. É também o mais novo, o fundador do grupo e aquele que, em aspectos emocionais e pessoais, mais se distancia e se aproxima de Bono. Vejamos como...

Larry Mullen Jr. nasceu no dia 31 de outubro de 1961. Larry tinha uma irmã mais velha, Cecília, e anos depois nasceria a terceira criança da prole, Mary e que faria parte de uma seqüência trágica na vida do jovem baterista.

Larry era uma criança calma, comportada, tímida e fechada. Assim como Paul, sua melhor amiga era sua mãe, Maureen. Sua irmã mais velha, Cecilia, também era sua grande protetora e muito ligada a ele. Após ficar um ano em uma escola do bairro, Larry foi transferido para a Scoil Colmcille, e toda manhã seu pai o levava até lá, de trem, completando o restante do percurso a pé. O trabalho de buscá-lo ficava para sua mãe, que fazia todas as vontades de seus filhos e do marido. Maureen era uma mulher extremamente dedicada ao lar e à família. Larry tornou-se um escoteiro, para alegria dos pais e aos oito anos resolveu aprender piano na mesma escola em que Cecilia tomava aulas. Ficou lá durante um ano, mas sua inabilidade para o instrumento acabou frustrando-o. Um dia, Larry viu alguém tocando um pequeno kit de bateria e ficou encantado. Pediu aos pais, que concordaram, desde que ele "pagasse" com tarefas domésticas o custo das aulas para tocar o instrumento, de aproximadamente 9 libras irlandesas mensais. Larry começou a ter aulas com Joe Bonnie, um renomado baterista local e que também era professor. Larry gostava das aulas e do estilo de Joe, mas odiava ter que ler livros técnicos. Ele sempre foi um aluno regular, sem nenhum brilho acadêmico. Fazia apenas o necessário para conseguir boas notas, e na escola, apesar de se destacar por ser um menino extremamente bonito, evitava contatos com outras crianças. Joe deu ao aluno um par de baquetas de borracha para que pudesse praticar alguns exercícios em casa. Larry passou a ficar o dia todo em casa fazendo os movimentos. Certo dia, Larry tomou um susto: sua irmã Cecilia havia feito uma surpresa para o irmão caçula e dado a ele um kit de bateria, que ela havia comprado de um rapaz, por 17 libras. Larry não acreditou no presente e cada centavo que ganhava ou economizava foi gasto em melhorar sua bateria, com pratos, peles e todos os acessórios que queria. Larry também adorava ouvir a coleção de discos de sua irmã, especialmente os LPs de David Bowie e Roxy Music. Nessa mesma época, a irmã caçula de Larry, Mary, morre, em 1973, fato que o baterista nunca gostou de comentar. Meses mais tarde, seria a vez de seu professor, Joe, falecer. Sua filha Monica tornou-se a professora, mas Larry não simpatizou com ela e nem seus métodos e resolveu deixar a escola.

Larry tinha confiança em seu estilo de tocar, apesar de não ter muita técnica, e resolveu praticar por conta própria. Nesse mesmo ano, entrou para a Mount Temple, por decisão de seu pai, que viu naquela instituição vários cursos diferenciados e que poderiam proporcionar uma profissão ao garoto, que não era um entusiasta dos livros. Como Larry adorava tocar e a Mount tinha um curso de música, pensou que seria uma idéia desenvolver essa habilidade de seu filho. Após a morte de Joe, Larry entrou na Artane Boys' Band, mas logo saiu, depois que exigiram que cortasse seus longos cabelos loiros. Larry disse que o faria, mas nunca mais voltou. Desde garoto mostrava uma personalidade muito forte e apesar de sua quietude, sabia exatamente o que desejava. Em seguida conseguiu uma vaga na banda dos empregados das agências de correios. Larry ficou por dois felizes anos, já que o grupo participou de inúmeros festivais, além de tocar todos os estilos musicais, desde músicas folclóricas até as mais tocadas nas emissoras de rádio. O ponto alto para Larry foi o desfile no dia de St. Patrick, mais precisamente na data de 17 de março de 1975.

Aos poucos ele ia criando sua própria música e não suportava mais ter alguém dizendo ou ensinando como deveria tocar. E Larry resolveu que deveria fazer algo a esse respeito. E o algo, encorajado pelo seu tutor Colm McKenzie, era montar uma banda. Mas montar como? Colm sugeriu que ele colocasse um cartaz na escola. Larry aceitou o conselho, mas o fez da maneira mais tímida possível. Apenas dizia que tinha uma bateria e procurava outros músicos para começarem algo. Mas ninguém respondeu de imediato. Até que...

3 - Adam Clayton


Oficialmente foi um certo Dave Evans quem primeiro procurou Larry para saber do que se tratava o cartaz, mas o primeiro garoto que realmente foi convidado pelo jovem baterista foi Adam Clayton. Adam era um rapaz totalmente diferente dos que circulavam por Mount Temple. Primeiro pelo seu sotaque britânico, já que Adam nasceu em Chinnor, Oxfordshire, Inglaterra, no dia 13 de março de 1960. O outro motivo era que Adam vestia-se e comportava-se como um hippie, usando lenços, cabelos encaracolados e óculos escuros. Era um garoto extremamente rebelde, mas ao contrário de Paul, sabia como levar seus professores à loucura, sem nunca perder o estilo britânico ou alterar a voz. Uma das coisas que mais gostava de fazer em sala de aula e que provocava risadas de seus colegas e desespero aos mestres, era colocar uma garrafa de café em sua carteira e ficar bebendo, sem parar. Nessas horas, quando os professores, irritados, perguntavam o que ele estava fazendo, polidamente respondia, "estou tomando uma xícara de café, senhor". Outra manobra que utilizava quando não fazia as suas lições de casa era responder da seguinte forma: "veja senhor, eu estou terrivelmente envergonhado sobre isso, mas simplesmente não entendi o assunto. Sei que isso é um tanto estranho e realmente lamento, mas não há nada que eu possa fazer."

Tanta petulância e audácia fez de Adam um nome muito famoso no "The Mall", onde um certo Paul Hewson, vivia zanzando. Várias coisas eram ditas sobre o tal Clayton e as mais comuns eram que sua família era rica e que ele possuía um baixo elétrico. Foi através desses boatos que Larry foi atrás de Adam. "Olá, ouvir dizer que você tem um baixo e estou formando um grupo, toco bateria e coloquei um cartaz na escola. Você teria interesse em se juntar a mim?", foi mais ou menos a pergunta que Larry fez. Adam adorou a proposta, mas como achou que fosse alguma atividade oficial da escola e não um convite que nada tinha a ver com os estudos, ignorou no início.

Adam era filho de um piloto das Forças Armadas Britânicas, Brian, e sua mãe, Jo, havia desistido de ser aeromoça. Quando Adam tinha cinco anos, a família resolveu abandonar a Inglaterra e ir morar em Dublin. Brian recebera um convite para ser piloto comercial da Aer Lingus, e aceitou já que o salário era muito superior. Assim, Adam partiu com seus pais e sua irmã menor, Sarah Jane, que ele chamava de Sindy.

Os Claytons moravam no mesmo bairro dos Mullens, Malahide, uma comunidade basicamente protestante. Quando fez oito anos, Adam foi enviado para a escola Castle Park, no outro extremo de Dublin. Os pais relutaram no início, por acharem que passariam boa parte do tempo sem seu filho, mas no final, acharam que seria o melhor para a educação de Adam. Castle era um internato e os meninos ficavam em dormitórios governados por alunos mais velhos. Adam não gostou nada de ter deixado sua casa para ir morar em Castle, já que voltaria para a casa de seus pais apenas nos finais de semana. O grande pesadelo para Adam eram as tardes de domingo, quando sua mãe preparava um agradável chá para o filho. Adam sabia que após a refeição deveria voltar para a escola. Às cinco horas, após dar adeus para Jo e Sindy, entrava no carro junto com seu pai e viajavam por cinqüenta minutos até o odiado lugar. Adam detestava as regras da escola, como usar sapatos marrons dentro do dormitório e pretos fora dele. Além disso, era proibido ver televisão ou ouvir músicas, pois eram consideradas coisas decadentes. Os meninos eram obrigados a gostar de praticar esportes, a ser entusiastas das práticas físicas ou não poderiam ser considerados uma pessoa da fraternidade. Adam recusava tudo isso e fazia uso de seu charme e inteligência para se esquivar de tais leis. Adam era definido como um bom aluno, embora um pouco descuidado. Seu único amigo era Phillip Thursby, filhos de paquistaneses, com quem adorava conversar, ouvir pássaros cantando e iam sempre à Sociedade Gramophone para ouvir discos de música clássica. Mau comportamento na escola era severamente punido com surra ou sessões de ginástica, aplicadas pelos alunos mais velhos. Adam conseguia de alguma forma ou outra, não ser muito perseguido, até que com 13 anos, deixou claro que não toleraria mais isso. Adam era um garoto educado, paciente, gentil, mas não era servil e isso todos sabiam.

Sua agressividade começou a aflorar perto dos 15 anos. Ele acabou sendo escalado para jogar críquete e se recusou, mas mesmo assim foi obrigado a integrar o time. Adam foi escalado, jogou, mas claramente prejudicou o time. Após o final da partida, foi chamado pelo treinador que começou a chamá-lo de imbecil, incompetente. Adam retrucou dizendo que o jogo era imbecil e não ele.

Ao final do ano, Adam foi mandado para outra escola, St. Columba. A instituição não fazia parte da idéia inicial de seus pais, que queriam enviar o menino a uma instituição mais prestigiosa na Inglaterra, mas Adam se revelou um aluno apenas regular. Um outro ponto também agravaria a vida do garoto. Seu pai havia sido transferido temporariamente para Singapura, e a escola, novamente um regime de internato, era a única solução. As coisas pouco mudaram e quando os pais perceberam que o filho estava decaindo em suas notas, entraram em desespero. Enquanto isso, Adam começou a fazer amigos, em especial com John Lesley, amante de rock e grupos como Grateful Dead, Cream e Crosby, Stills, Nash & Young. John tinha um violão e Adam ficava fascinado com as fitas de seu colega e com o som que tirava de seu instrumento. Quando um aluno mais velho conseguiu autorização da escola para converter uma sala abandonada em um local para os alunos ouvirem e tocarem música, Adam nem pensou muito. Começou a aprender alguns acordes e comprou uma guitarra usada, por 12 libras. John então persuadiu o amigo a comprar um baixo elétrico e montarem um grupo. Adam ficou em dúvida. Apesar de gostar de música, não se considerava muito musical e sabia que John era muito melhor instrumentista do que ele. Depois de pensar na idéia, resolveu aceitar a sugestão. Ligou então para sua mãe e pediu que ela lhe desse o instrumento. Jo aceitou de imediato a oferta do filho, e pagou 52 libras em um baixo para Adam. Mesmo pagando caro pelo instrumento, Jo ficou feliz ao ver o filho realmente empenhado e entusiasmado com alguma coisa, e porque, de certa forma, Adam começou a melhorar suas notas na escola. Entretanto Adam mais gostava de olhar para o instrumento do que propriamente tocá-lo. E Adam quase não tocava, esperando que algo ou alguma coisa o inspirasse. No verão de 1975, Adam foi visitar os pais, que acolheram o filho com muito carinho. Mas ele continuava a ter sérios problemas dentro da escola e várias vezes foi punido por rebeldia ou insolência. A situação chegou a um ponto tal, que Jo teve que ligar para o diretor da escola, quando soube que seu filho havia sido expulso da instituição por várias faltas. Adam se tornava uma criança problemática e seus pais resolveram, irritados, que o colocariam em uma escola pública, e economizariam o dinheiro com a educação de Adam. E assim, foi mandando para a Mount Temple. Adam reclamou que os dois estavam interrompendo sua carreira musical ao lado do amigo John, mas foi voto vencido. Adam obedeceu, mas resolveu que de agora em diante, não se curvaria mais às leis e normas de qualquer instituição e que aquela seria a última vez. Adam estava muito irritado com sua vida e com seus pais...

4 – Dave Evans


Se The Edge é considerado o cérebro da banda, o responsável por dar forma às idéias do grupo, não é por acaso. Desde criança, Dave Evans sempre foi uma criança muito atenta, inteligente e apesar de parecer dispersivo ou aéreo, sempre se manteve atento com aquilo que realmente o interessava. Sempre foi considerado entre os membros do U2 como o mais brilhante intelectualmente e o mais tenaz de todos. Possui a confiança de Larry, a vivacidade de Bono, a polidez de Adam e algo a mais. Assim como Adam, Dave é inglês. Nasceu no dia 8 de agosto de 1961, em Londres, na maternidade Barking. Sua família mudou-se para a Irlanda quando o pequeno Dave contava com um ano. Apesar de ter nascido inglês, era filho de um casal galês. Garvin e Gwenda Evans eram pessoas que haviam nascido em Llanelli, cidade conhecida pelos times de rúgbis e pelos corais de mineiros, uma das maiores tradições musicais daquele país. Garvin e Gwenda eram de origem protestante e por coincidência, ambas as famílias foram para a Inglaterra em busca de uma vida melhor. Se encontraram na escola e juntos foram para a Universidade e casaram logo após a formatura. Garvin diplomou-se como engenheiro e Gwenda como professora. Depois de dois anos de serviço obrigatório no exército, Garvin pediu transferência para seu país de origem, mas para sua surpresa e choque foi transferido para a Irlanda do Norte. Mas acabaram gostando do lugar e quando teve nova chance de transferência poderia optar entre Dublin ou Wigan, norte da Inglaterra. O casal escolheu a capital do Eire e, nessa época, já contavam com dois filhos. Além de Dave, havia Dick, com três anos. A mais nova, Gill, nasceria já em solo irlandês.

A família Evans mudou-se então para Malahide mesmo bairro dos Claytons e dos Mullens. Era uma família normal, muito educada e muito popular na vizinhança. Garvin começa a prosperar trabalhando como consultor, por conta própria. Era assíduo freqüentador da igreja presbiteriana e fundador do Coral Masculino dos Galeses de Dublin, além de grande apaixonado pela seleção de rúgbi de seu país natal. Gwenda era igualmente ativa e integrava a Sociedade Musical de Malahide. O jovem casal amava música e tocavam piano em casa. Gwenda tocava músicas para os filhos pequenos.

Dos quatros futuros integrantes do U2, foi o Dave o que teve a infância mais feliz, menos atribulada e mais segura. Na escola, apesar de tímido e quieto, mostrava-se um aluno brilhante, obediente e participativo. Fora dela, era uma criança feliz, com muitos amigos e divertido. A única coisa que o incomodava um pouco era seu sotaque carregado, influência de seus pais. E nada mais.

Dave foi parar na Mount Temple por influência de seu melhor amigo, Shane Fogarty. Shane vivia dizendo a ele o quanto a nova escola era agradável, divertida e que tinha um garoto excêntrico chamado Paul Hewson que vivia aprontando das suas. Dave acabou mudando para lá, mas não gostou do ambiente. Dave era uma criança que gostava de discrição, de não chamar atenção. Como nunca foi bonito e muito tímido, pouco se arriscava a conquistar as belas meninas da escola, embora se sentisse, ocasionalmente atraído por algumas. O resultado é que acabou se aprofundando nos estudos, e de fato, nos primeiros anos, Dave vivia praticamente só dentro da instituição. Era uma situação ambígua, pois Dave gostava de fazer amigos. Nas poucas oportunidades em que deixava a inibição de lado, se mostrava um garoto com uma inteligência aguçada, ótimo papo e uma companhia agradável. Mas esses momentos eram raros. Dave, seguindo o exemplo dos pais, adorava as aulas de música, e, em especial, tocar violão. Sua primeira paixão foi a música flamenca e a espanhola, em geral. Também aprendeu algumas noções de piano e demonstrava um excelente ouvido para a música. Junto com seu irmão Dick, começou a tirar canções dos Beatles. Dick havia ganho o instrumento de sua mãe que achou em uma loja por apenas 1 libra, mas sem cordas. Após ajeitar o instrumento acabou dando a seu filho mais velho.

Dick foi uma importante influência na vida de seu irmão. Como o pai, era apaixonado por eletrônica e escrevia artigos para a Everyday Electronics, uma revista que ensinava como as pessoas poderiam construir aparelhos eletrônicos de maneira fácil. Um dia, Dick viu na capa da mesma revista, dicas de como construir uma guitarra em casa. Trancou-se em casa com seu amigo Barry O'Connell, tendo o irmão menor ao seu lado. Dave acompanhava silenciosamente o trabalho de seu irmão, fascinado. E acabou descobrindo que a música seria sua profissão.

5 - O primeiro encontro


Após ter conversado com Adam, Larry foi perguntar para Dave se ele gostaria de começar um grupo. Dave topou, mas com a condição de que pudesse levar seu irmão junto. Larry aceitou. Era a chance dos irmãos Evans estrear a nova guitarra, toda amarela, mas que produzia uns sons estranhos. Os dois encontraram então um jovem cabeludo com óculos escuros no ponto de ônibus. Era Adam Clayton, que carregava seu baixo embaixo do braço e um amplificador no outro. Os Evans olharam para Adam admirados e percorreram todo o caminho até a casa de Larry conversando e estabelecendo uma amizade. Adam encantou os dois falando milhões de gírias do mundo do rock. "Esse cara manja muito", pensaram os irmãos. Mas eles não foram os únicos que caminharam até a avenida Rosemount. Vindo de outro lado, Paul Hewson resolveu conferir o convite daquele jovem baterista que tanto o impressionara na escola, pela sua beleza e timidez. Mas Paul não foi sozinho e acabou carregando Ivan McCormick junto.

Quando Larry olhou para aqueles cincos garotos, levou um susto. Ele havia procurado um baixista e um guitarrista e de repente, apareceram um baixista e QUATRO guitarristas! "Bem, e quem cuidará dos vocais?" perguntou Larry. Ninguém se habilitou.

Apesar de todos freqüentarem a mesma escola, nunca haviam ficado juntos ou sequer conversado. Os gostos musicais batiam em poucas coisas. Todos gostavam de Beatles, Stones e Bowie. Larry amava as bandas glitters como o Sweet. Dave adorava o som da guitarra de Rory Gallagher, fosse com seu grupo Taste ou solo, e até de Yes. Paul gostava de Elvis e estava antenado com o novo movimento que invadia o mundo, chamado punk rock. Adam conhecia tudo sobre a cena de San Francisco dos anos 60. Apenas Dick e Ivan não tinham gostos claros ou não quiseram comentar. O primeiro trabalho para Larry era acomodar seis pessoas em um espaço exíguo dentro de sua casa. O único local que parecia possível seria a cozinha e para lá foram. Larry precisou abrir a porta de trás para abrigar sua bateria. De maneira desordenada, começaram a tocar canções dos Stones, como "Brown Sugar". Mas a balbúrdia agregada ao som horroroso que faziam chamaram atenção de toda a vizinhança. Logo, o quintal estava cercado de curiosos, que riam. Irritado, o baterista ligou a mangueira de água em cima de sua primeira "platéia" e espantou os curiosos.

O primeiro encontro deixou claro alguns pontos: Larry e Dave sabiam tocar, assim como Dick, embora sua guitarra desafinasse clamorosamente. Ivan desistou e nunca mais voltou. Paul não era bom guitarrista, mas tinha atitude e queria tentar. E a maior decepção acabou sendo Adam, que após tanta pose, gíria, seu próprio amplificador e atitude, mostrou que não sabia tocar nada. Mas Adam tinha tanta vontade e atitude quanto Paul. Bem, e quem faria o quê? Estava claro que Paul era um guitarrista medíocre, se tanto, e que ele gostava muito mais de falar do que de tocar, e que tentava chamar toda a atenção para ele da mesma maneira que agia em casa ou na escola. Adam viu isso e tentou tomar a frente dizendo que eles poderiam começar a ensaiar e até arriscar algumas apresentações, já que Adam jurava conhecer algumas pessoas do meio. Mas depois de verem como manejava seu baixo, todos pensaram se aquilo não seria apenas outra bravata. Ok, eles iam tentar. E qual seria o nome do novo conjunto? A escolha acabou sendo Feedback, uma referência ao som distorcido que saía dos amplificadores de Adam. Dick poderia fazer parte da banda, se sua guitarra assim permitisse. E o som começou para os cinco jovens. Mas nada seria muito fácil...

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Under a Blood Red Sky


Eles foram a banda mais aclamada dos anos 80, capa da Time, mérito que apenas Beatles e Who haviam conseguido. Foram também um dos mais bombásticos shows ao vivo na década passada. Deixaram na memória, apresentações memoráveis como o do Live Aid. E boa parte desse fogo ficou registrado no disco Live Under a Blood Red Sky, de 83, lançado após War. Foi a turnê chave da banda na América, quando sendimentaram seu nome e começaram a fazer fama e dinheiro com sua música de protesto. Hoje, o U2 aparece em Fantástico, e vendem horrores no Brasil. Mas nem sempre foi assim. Houve um período, em que eram apenas mais um nome desconhecido do grande público e sonho secreto de muitos para que tocassem no país. U2, a maior banda dos anos 80 e Live Under a Blood Red Sky,, um dos discos que mais ouvi em toda minha vida.

1 - Sob um céu vermelho-sangue


O disco começa com "Gloria", uma música de fortes ligações religiosas. Me lembro do clip dessa música, com a banda tocando em uma balsa, no meio de um rio, em Dublin.

A segunda canção é "11 O'Clock Tick Tock", uma música dos primórdios do U2 e que nunca saiu em disco de estúdio, só em compactos, ainda pela CBS irlandesa, quando eram conhecidos como U-2.

A terceira canção é a enérgica "I Will Follow", que Bono conta que se lembra de sua mãe, pois é uma canção sobre morte. Ele a perdeu na adolescência. Uma das canções mais fortes do grupo e tocada até hoje.

Outra canção inédita em vinil, disponível apenas em compacto, é "Party Girl". Conta a estória de uma festa de garotos, e clima que The Edge coloca apenas no violão acústico é maravilhoso. Não é à toa que no meio da canção, Bono grita, "Guitar hero!" O herói da guitarra era Edge, de quem Bono é o maior fã confesso.

O lado B abre com o clássico absoluto, "Sunday Bloody Sunday". Se na versão de estúdio de War, a canção era lenta, aqui ganha um punch incrível e excita as pessoas a um nível absurdo. No meio da canção, Bono sempre empunhava uma bandeira branca e berrava "No More!" (pedia não mais guerras).

Mal saiu da energia de Sunday, o ouvinte já é puxado para "The Electric Co." uma composição de Boy, primeiro LP do grupo. O final da música com Edge ensandecido é maravilhoso. Vale lembrar que Adam Clayton no baixo e Larry Mullen na bateria seguram todas e não deixam o clima abaixar um segundo sequer.

"New Year's Day" é a prova das qualidades de Edge, que fica entre o piano e a guitarra. A letra, uma homenagem ao sindicato Solidariedade, da Polônia, ajuda muito a animar o espetáculo.

O disco chega ao fim (já?) com "40", uma canção em que Edge e Adam costumavam trocar de instrumentos, por diversão e terminava com um solo de bateria de Larry acompanhado por um coral de vozes da platéia.

O vídeo é ainda mais forte. Começa com a banda entrando no palco, todos de mangas curtas, sob um frio enorme. Vão desfilando clássicos e levam a audiência ao êxtase. O anfiteatro possui duas tochas acesas no alto e o grupo vai tocando praticamente todas as músicas de seu repertório.

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Rattle And Hum & Lovetown Tour - U2 1988/1990


Os últimos anos da década de 80 foram os anos em que a banda acabou sofrendo críticas de todos os lados e virando até motivo de piada. Até Bo Diddley ironizou, dizendo que deveria constar nos créditos de "Desire", já que The Edge havia feito uma cópia descarada do estilo legendário de Bo na guitarra. Quando Rattle and Hum saiu havia quem ficasse surpreso com o grupo, mas há quem virou a cara, pela ousadia de Bono em escrever "God Part II", que seria uma continuação à canção de John Lennon, que ele cantou em seu disco Plastic Ono Band. Além disso, o grupo regravou Beatles, Bob Dylan, usou Hendrix em "Bullet the Blue Sky", gravou com B.B. King e o próprio Dylan e citou John Coltrane, Miles Davis, Billie Holiday, entre outros mitos da música. Mesmo tendo vendido 14 milhões de cópias, o disco e o filme subseqüente fizeram o U2 entrar em um redemoinho e por muito pouco não causa o fim do grupo. Uma fase em que teve de tudo, até a prisão do quieto Adam Clayton por posse de maconha e prêmios Grammy.

U2 com o Grammy do álbum do ano: The Joshua Tree

1 – O reconhecimento da indústria


O ano de 1988 começou com grande movimentação para o grupo. Em fevereiro, se reuniram com Paul McGuinness e o diretor Phil Joanou para começarem a montagem do novo filme, que ainda não possuía um título. No mês seguinte, a indústria americana abre os braços para os irlandeses, dando dois prêmios Grammy, sendo um o de melhor disco do ano. Em um dos discursos, Bono agradeceu o apoio das college radios. As college foram um fenômeno que assolou a América nos anos 80 e tinham como missão apoiar bandas desconhecidas ou foram do mainstream, e, muitas delas tinham suas sedes nas universidades. As bandas norte-americanas preferidas nos anos 80 eram R.E.M., Husker Dü e Replacements.

Em março ainda sai um novo single do The Joshua Tree, editado especialmente na Nova Zelândia, país de Greg Carroll, One Tree Hill. A foto era a mesma utilizada no single In God’s Country.

Mas a grande preocupação era realmente o filme. Joanou tinha uma difícil missão que era editar 250 horas de filmagem com o grupo. Ele tinha uma ordem expressa de não glamourizar o grupo. A idéia era mostrar os integrantes sendo o mais simples possível. Por isso mesmo, uma das imagens que Joanou tinha em mente foi abortada, para sua tristeza - justamente a cena em que mostra Bono dando entrada no hospital, após sofrer uma queda no palco. O cantor berrava para que parasse a filmagem, e a única imagem aproveitada foi quando a banda se dirigiu a uma igreja do Harlem para fazer um ensaio de “I Still Haven’t Found What I’m Looking For” com Bono tendo o braço imobilizado, já que havia deslocado o ombro.

Joanou resolveu aproveitar os vários momentos da excursão do grupo dentro da América, mostrando o grupo gravando “Angel of Harlem”, no Sun Studio, uma apresentação ao lado de B.B.King e a visita do grupo em Graceland, a mítica mansão de Elvis Presley. Elvis era o grande ídolo de Larry, que protagoniza dois momentos tocantes: sentando em uma motocicleta Harley Davidson e uma rápida entrevista, onde confessa sua paixão pelo cantor desde quando era menino.

Durante a gravação do filme

O ano de 1988 foi o primeiro em que o grupo não realizou shows, com exceção de uma apresentação solitária em Londres, em Novembro, em prol da Jamaica, quando o furacão Gilbert, devastou o país. As primeiras notícias sobre os novos rumos era que um novo disco sairia e que ele seria ao vivo. O grupo tratou de explicar que um novo álbum seria lançado contendo algumas faixas ao vivo e outras inéditas, em estúdio. Mas não deu pistas de quais canções seriam.

Escrever novas canções é um ato de sobrevivência para nós. Nós pensamos da seguinte maneira: se não conseguimos tocar as antigas músicas, então escreveremos novas e as tocaremos. Se os fãs gostarão ou não, é outro assunto, mas o fato é que nós precisamos disso. Não há como ficar preso no passado. A evolução é uma conseqüência natural”, segundo Bono.

O que o grupo temia – e que já acontecia – era aumentar as críticas sobre a “americanização” do grupo. Desde que tinham virado a grande banda da década e ganhado prêmios Grammy, tudo parecia muito fácil para o U2. O dinheiro entrava fácil, os projetos eram variados e a fome de novas experiências maiores ainda.

2 – "Nós precisamos de rivais"


O grande medo da banda era simplesmente a falta de competidores, principalmente dentro da Irlanda. Para Adam, a pressão em cima do U2 era simples de ser explicada: não havia alguém com quem pudessem dividir os holofotes.

A pressão em cima de nós está sendo cruel até certo ponto, porque não temos nenhum outro artista irlandês que faça sucesso como nós. Se isso é bom em alguns aspectos, causa um estresse porque temos nossos passos vigiados. Eu sinto falta de Phil (Lynott, líder do Thin Lizzy, que morreu no começo de 1986) porque ele era uma pessoa que tinha os mesmos problemas que enfrentamos hoje e seria alguém com quem poderíamos conversar. Sei que parece ridículo reclamar, pois parecemos mimados, mas a verdade é que toda a mídia da Irlanda fez do U2 seu maior combustível. Existe uma diferença entre a Europa e a América. Lá você é um astro, as pessoas têm menor contato e uma imagem diferente. Eu não abro mão de viver em Dublin, porque amo essa cidade e porque ela nos proporciona um conforto e uma tranqüilidade que não teríamos em outra parte do planeta, mas reconheço que os problemas estão crescendo.

A falta de Lynott era sentida também por Bono. “A coisa que mais me lembro dele é quando aluguei uma casa na mesma rua em que ele morava. Era algo estranho, pois você nunca o encontrava em sua residência, apenas na rua. Nós nos cumprimentávamos e ele me chamava para ir até sua casa para um almoço e eu retribuía o convite para que também me visitasse. Só que os convites acabavam ali mesmo. Phil era um cara bacana, uma pessoa com quem conversei algumas vezes e que sentia a pressão da mídia. Infelizmente ele foi embora cedo demais.

3 – Rock nas paradas


No entanto, o grupo continuava a caminhar sempre pensando em se aperfeiçoar. The Edge era um dos maiores entusiastas das novas canções e sentia que a banda estava atingindo um ponto que jamais havia sonhado. “As novas canções me deixaram extremamente feliz. Eu sinto uma espécie de energia dos mesmos discos da década de 50 e 60. Naquela época você sentia os músicos interagindo, ao contrário de hoje, em que os discos são comandados pelos produtores. E essa qualidade é que estamos tentando buscar no nosso trabalho. Eu não acho que esse trabalho seja revivalista porque ele reflete nosso momento. Também não estamos fingindo que não sofremos influência de outros músicos. Mas eu fico feliz quando vejo que nossas músicas estão no topo da parada porque o rock parecia ter sido esquecido das paradas.

The Edge estava se referindo não apenas aos hits de The Joshua Tree, mas principalmente ao primeiro compacto do novo disco, “Desire”. Com um riff roubado diretamente do estilo de Bo Diddley de tocar, a canção foi a primeira a conseguir o topo da parada inglesa para o grupo. Nos Estados Unidos, “Desire” alcançou o terceiro lugar.

Desire” foi lançada em setembro um mês antes do novo disco e projeto do grupo, Rattle and Hum, que era, de longe, o mais ambicioso que já haviam realizado: um disco duplo, com faixas ao vivo e de estúdio e o tão esperado e comentado filme. Analisemos cada um...

4 - Rattle and Hum, o disco


Se o U2 queria causar polêmica não podiam ter começado o disco com uma canção melhor: nada menos do que um clássico do Beatles e que havia sido “usada” pelo assassino psicopata Charles Manson na década de 60 para matar pessoas: “Helter Skelter”. E a frase inicial da canção dita por Bono era ainda mais megalomaníaca: “essa canção Charles Manson roubou dos Beatles e nós a estamos roubando de volta.

Executada com grande precisão e gravada ao vivo durante a turnê do ano anterior, a canção mostrava a energia do novo U2: um grupo mais afinado e pesado do que nunca e que escorregavam nas famosas bandas de “rock de arena”, com um som gordo, bem costurado e potente.

A segunda faixa era ainda uma surpresa maior, já que era uma canção folk cantada e escrita por The Edge, “Van Diemen’s Land”. A letra conta a história de John Boyle O’Reilly um dos líderes do levante irlandês de 1848 contra a Inglaterra. Esse levante acabou gerando a “Grande Fome” que devastou o país e Boyle acabou sendo expulso e deportado para a Tasmânia.

A terceira canção era “Desire” primeiro single do disco e que começa com Joanou entrevistando a banda e Adam tentando responder. A conversa acaba em risadas, em um papo que havia sido editada e os risos aconteceram porque Larry Mullen imitava os gestos de Adam enquanto ele falava. Essa parte é mostrada no filme.

A quarta canção é uma das mais belas e surpreendentes do disco: “Hawkmoon 269”. Primeiro por conter Bob Dylan no órgão Hammond. Essa canção possui um dos títulos mais interessantes e cheios de história sobre sua origem. A primeira é que ela foi inspirada em um livro do escritor norte-americano Sam Shepard, Hawk Moon. E Shepard lançou outro livro chamado Motel Chronicles e que supostamente foi escrito em um quarto de número 269. Os dois livros discutem e fundem imagem dos desertos do sul dos Estados Unidos nas obras, um tanto quanto autobiográficas, de Sam. Hawkmoon é uma locação em Rapid City, em Dakota. E há ainda quem considere (como o autor de U2 – The Ultimate Encyclopedia, Mark Chatterton) como o número de vezes que a canção foi mixada. Mas essa versão não parece ser muito real, já que Bono disse isso em uma entrevista, em meio a gargalhadas gerais dos outros integrantes.

O lado B abre com um clássico de Dylan, mas que ficou imortalizada com Jimi Hendrix. Sobre essa canção Bono comentou: “qual banda em uma posição igual a nossa iria aprender os acordes cinco minutos de subir ao palco, tocá-la e ainda gravá-la? Nenhuma.” Essa é a famosa canção que aparece Bono pichando o monumento no show grátis em São Francisco.

O disco continua com “I Still Haven’t Found What I’m Looking For” gravada da maneira que o grupo sempre sonhou: com um coro gospel, o Voices of Freedom. Em seguida, uma canção de 38 segundos e que nenhum membro do grupo toca, “Freedom for my people”. Ela é executada por Sterling Magee (guitarras e percussão) e Adam Gussow (gaita), dois músicos de rua e que o grupo encontrou no Harlem, encontro, aliás, também presente no filme.O lado B abre com um clássico de Dylan, mas que ficou imortalizada com Jimi Hendrix. Sobre essa canção Bono comentou: “qual banda em uma posição igual a nossa iria aprender os acordes cinco minutos de subir ao palco, tocá-la e ainda gravá-la? Nenhuma.” Essa é a famosa canção que aparece Bono pichando o monumento no show grátis em São Francisco.

Silver and Gold”, feita para o projeto Sun City é a próxima canção e onde Bono faz um discurso inflamado contra o apartheid. A próxima canção talvez seja o maior exemplo do rock de arena, com “Pride” em um formato tocado com Bono cantando alto e os instrumentos extremamente encorpados.

O lado C abre com uma das canções que virou um dos hits do disco, “Angel of Harlem”. Feita em homenagem à Billie Holiday, uma das grandes divas do jazz e figura trágica, o disco é cheio de metais (cortesia do The Memphis Horns) e citações a Miles Davis e John Coltrane. A canção foi gravada nos dois dias em que o grupo esteve no Sun Studios, quando trabalharam com Cowboy Jack Clement.

Outra canção gravada no mesmo local e novamente com a presença de Bob Dylan, “Love Rescue Me”, é uma bela letra sobre dor e esperança e citações bíblicas.

O disco ganha o peso do blues com “When Love Comes to Town”, que contava com a presença inusitada de B.B.King, o lengendário bluesman, que cantou a maior parte das letras e ficou com a guitarra solo, deixando para The Edge o incômodo trabalho de fazer a guitarra rítmica, já que King confessou ser horrível com acordes. The Edge conta como surgiu a canção: “Bono e eu encontramos B.B.King em Dublin e ele disse que deveríamos escrever uma canção para ele. Nós dissemos ‘ah, claro’, até que um dia Bono disse que havia feito uma canção que tinha ficado boa e queria oferecer a ele. E assim ela entrou no disco. Nós descobrimos que havia algo em comum entre o U2 e artistas mais velhos, como é o caso de B.B. Quando nos encontramos haviam um grande entendimento e nada foi dito, porque era desnecessário. Nós demoramos 10 anos para alcançarmos essa posição e não precisávamos provar nada para alguém.

U2 e B.B. King: When Love Comes To Town

A próxima canção, “Heartland” conta a participação de dois velhos amigos, Brian Eno e Daniel Lanois, embora Brian só tenha tocado teclados e talvez seja a canção mais “americana” no sentido de retratar as paisagens sulistas da América.

A próxima canção pode ser considerada a mais delicada e mais egocêntrica que o grupo já realizou: “God Part II”. A razão para tanto é que Bono mexeu em território minado, pegando uma canção de John Lennon, intitulada “God” e resolveu fazer uma continuação. Na original, Lennon nega acreditar em qualquer coisa, exceto nele e em Yoko. Só que a canção de Lennon era calma, cantada com angústia, mas de maneira quase acústica. Aqui, Bono berra a letra, fazendo crer que realmente tem uma bola de fogo, como diz a letra. Bono berra os versos para concluir que ele acredita no amor. Uma curiosidade sobre a canção: antes do U2 escrever, já existia uma canção intitulada igualmente “God Part II”. Ela havia sido feita por um cantor gospel chamado Larry Norman, que concluía acreditar em Deus. No entanto, Larry, mudou o nome de sua obra para “God Part III”, quando soube da existência da canção do U2.

E a próxima canção, é de fato, a síntese de todo o disco, de toda a relação de amor e ódio com a América; “Bullet the Blue Sky” e vale uma explicação mais detalhada. Em primeiro lugar, é dessa música que foi retirada o título do disco; foi dela também retirada a imagem da capa do disco, quando Bono joga um canhão de luz em cima de The Edge. E tem mais: antes dela aparecem alguns segundos de “Star Spangled Banner” tocada por ninguém menos que Jimi Hendrix. E finalmente, é a letra mais crítica em relação à América que explora os imigrantes, os pobres e os velhos. Como já foi citada na coluna anterior, foi a última música a ficar pronta para entrar em The Joshua Tree pela escolha do último verso. Vale ressaltar o excepcional trabalho de The Edge e o peso da bateria de Larry Mullen, que soa igual a um trovão.

Encerrando o disco, a bela “All I Want Is You”, com um arranjo de cordas Van Dyke Parks, que trabalhou em vários discos dos Beach Boys. É considerada também uma declaração de amor de Bono para sua esposa, Ali.

Rattle and Hum teve críticas confusas. Se por um lado foi eleito o álbum do ano pela Rolling Stone, na Europa tomaram algumas sovas da crítica por terem esquecido sua origem européia. Algumas críticas mais ranzinzas chegaram a dizer que a banda poderia se mudar para a América porque haviam traído suas raízes.

Vale dizer que o disco vendeu a impressionante marca de 14 milhões de cópias, ou 28 milhões de cópias, já que era um álbum duplo e que o disco foi produzido por Jimmy Iovine.

Mas isso era apenas uma parte do pacote...

5 - Rattle and Hum, o filme


Se o disco foi um sucesso (ao menos, de venda), o filme não foi nem uma coisa e nem outra. Após oito meses de produção e trabalho extenuante de Phil Joanou e do grupo, o filme teve seu lançamento mundial no dia 27 de outubro, em Dublin. A cidade parou para ver o filme que falava dos filhos mais famosos da cidade. Uma produção que mostraria todo o mergulho do grupo na música norte-americana e que foi rodada, em sua maioria, em branco e preto, como se fosse um filme de arte.

A curiosidade era tão absurda que o grupo improvisou algumas músicas em um palco montado em cima da entrada do cinema. O filme ainda teve noites de estréia em Madri, Londres e Los Angeles.

Apesar das criticas, o filme é bom e deixa claro duas coisas: é um filme honesto, com um roteiro simples, bem construído, mas que chega a ser cansativo já que o grupo definitivamente não sabe “atuar”.

As partes mais constrangedoras e criticadas do filme são as tentativas de entrevista do diretor com a banda. “O filme está ficando caro, Phil?” pergunta Bono, em um momento. “Oh, God, I don’t know”, solta Adam Clayton. O melhor depoimento acaba sendo do personagem mais inusitado: Larry Mullen, quando o grupo vai até Graceland.

Em termos de música, não há reclamações: o grupo mostra uma força incrível em canções como “Exit”, onde improvisam “Gloria" (de Van Morrison, e não do disco October), “Silver and Gold”, a já famosa cena de “All Along the Watchtower”. Uma comovente atuação em “Bad” e uma versão furiosa de “Sunday Bloody Sunday”, filmada justamente no dia em que a cidade irlandesa de Enniskillen, na Irlanda do Norte e que vitimou 13 pessoas. No meio da canção, Bono começa um discurso virótico, condenando o ato e a “glória de morrer pela revolução”. “Foda-se a revolução!” grita o cantor com todas as letras. Sobre essa atuação, o cantor disse, que seria a última vez que o grupo apresentaria a mesma ao vivo em uma entrevista, meses depois, o que nunca aconteceu.

E talvez essa ingenuidade da banda, e principalmente de Bono, tenha sido o grande pecado. Joanou fez um bom filme dentro das possibilidades que tinha, já que em nenhum momento trabalhou com algum ator conhecido. Assim, as imagens do encontro do grupo com o coro Voice of Freedom em uma igreja no Harlem é válida ser registrada por ser um ensaio para a apresentação de dias depois e por mostrar Bono com o braço engessado e Larry brincando com uma conga cubana. Da mesma maneira, o encontro com B.B King em um ensaio, nos camarins mostrando a letra e no palco, chega ser comovente pela espontaneidade e deferência do grupo ao sexagenário B.B. (que confessa ter 62 anos, na película), e o elogio do velho mestre _“uma grande dose emoção de aqui meu jovem, uma grande dose” e batendo palma com as costas da mão ante a um olhar extasiado de Bono ou quando Bono pergunta a B.B King “você está brincando, certo?” quando King confessa ter horror a tocar acordes. “Edge também não gosta, ele só conhece dois!

O filme realiza seu intento musical: abrindo e fechando com duas apresentações em preto e branco – “Helter Skelter” e “Pride”, o filme ainda possui cenas feitas em cor, onde algumas canções são tocadas.

Mas como eu sozinho não podia bancar toda a bilheteria, o filme naufragou e um mês depois estava quase que totalmente fora das salas de cinema dos Estados Unidos. Mesmo com as entrevistas. Phil explicava que o mote do filme era justamente a sinceridade do grupo e queria mostrar os passos do grupo no Sun Studios ou em entrevistas com a imprensa.

Embora tenha deixado algumas feridas aberta no grupo, a banda tratou de minimizar os efeitos. “Nós somos músicos de uma banda de rock e não atores profissionais e nossa intenção era mostrar todo o processo de criação do disco e não cenas técnicas.”

Adam também defendeu semelhante posição: “estão nos chamando de megalomaníacos por termos feito um filme rodado na América e falando de nossas descobertas musicais. Eu não vejo o que há de errado nisso. Os nossos diálogos são ruins? Eles tinham que ser, eles não foram ensaiados por nós, eram espontâneos. Eu não sei qual o motivo de tanto alarde. Me parece que o motivo é o mesmo de sempre: ficamos grandes demais!

6 – Roy Orbison


O ano de 1989 começou com mais prêmios Grammy, com “Desire” sendo escolhida a melhor canção de rock do ano. E logo em fevereiro o grupo surpreende ao ceder uma canção para o grande cantor Roy Orbison, “She’s A Mistery to Me”, que entrou em seu álbum póstumo Mystery Girl. Essa canção, aliás, possui uma explicação deliciosa dada por Bono. “Eu tinha acabado de assistir o filme Blue Velvet e tinha ficado chapado com a trilha sonora e especialmente com a canção “In Dreams”, com Roy Orbison. Após um show no Wembley Arena, em Londres, eu estava sem conseguir dormir e comecei a ouvir a fita com essa música, sem parar, até que entrei em um estado de inconsciência e pensei que tinha acordado dentro da canção. Eu pensei que era a mais extraordinária canção feita porque quebra todas as regras da música pop. E lá estava esta fantástica voz barroca. Assim, no dia seguinte, acordei e escrevi ‘She’s A Mistery to Me’. Depois me tornei um chato e fiquei falando de Roy Orbison o dia todo e comecei a tocar a música que havia escrito para o pessoal do grupo e eles gostaram. Ou pelo menos fingiram que gostaram porque tinha parado de falar nele. Enfim, fizemos outro show no Wembley Arena e eu estava sentado nos camarins quando nosso segurança, John, bateu na porta e me disse que Roy Orbison estava lá fora e queria nos conhecer.

Todo mundo começou a me encarar e eu dizia ‘um minuto aí, eu não tinha a menor idéia que ele estava vendo o nosso show. E Roy entrou e começou a dizer que tinha gostado do show, embora não soubesse dizer o motivo. Conversamos um pouco sobre música até que peguei o violão e mostrei a música para ele. Meses depois, fui até Los Angeles fazer uma visita em sua casa e sua família foi muito generosa e passamos horas maravilhosas. Roy parecia uma pessoa surpresa com o talento que tinha recebido, com aquela voz de anjo. E hoje, ele é um deles.


Mas o período continuava conturbado para o grupo e pioraria com um incidente que virou manchete mundial...

7 – A prisão de Adam Clayton


Em agosto Adam Clayton é preso por portar 19 gramas de maconha, em um domingo à noite, perto de sua casa. O baixista alegou que era apenas para seu consumo e foi solto após pagar uma fiança de 710 libras irlandesas, mas teria que comparecer a um julgamento no dia 1º de setembro.

A prisão e o julgamento fizeram de Adam a notícia mais quente do país por semanas. Finalmente (para os tablóides) um membro do grupo era notícia: “U2 MAN ON DRUGS CHARGES!”. No dia marcado, Adam compareceu ao tribunal acompanhado de Larry e de Paul McGuinness.

O julgamento foi rápido e breve. Após se declarar culpado e pedir desculpas pelo seu ato, o advogado disse que o réu estava disposto a fazer uma substanciosa contribuição para alguma entidade em troca de uma pena mais severa, já que Adam é um músico que vive viajando e sempre havia sido um bom cidadão, tendo inclusive se naturalizado irlandês no começo daquele ano.

E, para surpresa geral, o juiz ordenou que Adam doasse 25 mil libras irlandesas a The Women’s Aid Refuge Centre. A quantia foi paga imediatamente e Adam estava livre para voltar para casa, para alívio de todos, pois o grupo começaria sua última turnê da década de 80.

8 – Lovetown


B.B.King com o U2 durante coletivaA turnê havia sido planejada para acontecer apenas na Austrália, Nova Zelândia e Japão e com um show de encerramento no Point Depot, no dia 31 de dezembro, em Dublin, local onde o grupo havia gravado boa parte de Rattle and Hum. Eram mais de 20 meses sem uma excursão longa e desta vez não incluiriam a América no roteiro. Posteriormente shows na Alemanha, Irlanda, França e Holanda foram inclusos. A turnê, no entanto, não acabou no dia 31 como planejado, porque Bono perdeu a voz no concerto marcado para Amsterdã no dia 18 de dezembro e fizeram shows extras nos dias 5, 6, 9 e 10 de janeiro de 1990, em Roterdam. Era a primeira vez que tocavam na Nova Zelândia desde 1983 e no Japão desde 1983 e por isso, os ingressos esgotaram-se rapidamente. Como o grupo não havia feito uma tour para divulgar o disco, eles resolveram ensaiar 35 músicas e escolherem 20 canções para cada apresentação, fazendo que cada noite tivesse um set list completamente diferente do outro. Um documentário foi filmado por Richard Lowenstein e René Castro, artista chileno que Bono conheceu durante a turnê da Anistia, em 1986, cuidaria dos figurinos de palco. E a maior atração seria B.B. King que abriria todos os shows.

Larry durante a Lovetown. O filme mostrava uma garota australiana entrevistando cada integrante da banda dizendo quais eram as diferenças entre sexo e amor, além de colher depoimentos de espectadores.

O grande acontecimento no entanto aconteceu na última noite, em Dublin. Com o show começando antes meia-noite e terminando no ano de 1990. Na verdade, os cinco shows programados para o Point Depot, com capacidade para 5 mil lugares, acabaram sendo apenas quatro, pois o dia 29 foi cancelado por problemas com as cordas vocais de Bono. A primeira apresentação, no dia 26, foi feita em um estado emocional grande, já que dias antes havia falecido o grande escritor irlandês Samuel Beckett. No dia 27, Maria McKee subiu ao palco para tocar “People Get Ready” e Bono causou um frisson quando anunciou que a banda iria sumir por um tempo, dando margens às especulações de que o grupo iria terminar. O show do dia 30 foi considerado o melhor do grupo em toda sua carreira, tocando “She’s A Mystery To Me” e “11 O’Clock Tick Tock”.

The Edge durante a Lovetown

Para o show do dia 31 uma grande operação foi feita para que 20 países transmitissem ao vivo o espetáculo e Bono brincava dizendo que só Deus sabia para onde iriam essas gravações.

Nesse dia, Bono disse duas frases emblemáticas e que mostrava o espírito do grupo. A primeira foi “nós não podemos continuar fazendo isso para sempre” e a outra “nós precisamos ir embora e voltarmos a sonhar novamente.”

O que ele quis dizer com isso era uma incógnita para todos, inclusive para o próprio Bono, que certamente não esperava que os destinos do grupo fossem mudar tão radicalmente e que a volta seria tão vitoriosa e com uma imagem totalmente diferente da que haviam cultivado. E se ele o grupo precisou de um ano para sonhar, eu também necessito de uns meses para descansar.

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Zooropa: Tudo sobre o disco


Turnê pelo mundo, disco novo, parceria com Frank Sinatra, Macphisto... não foram poucos os assuntos de 1993 na vida do U2. O grupo teve uma agenda para lá de movimentada e problemas internos, como o de Adam Clayton com a bebida quando teve que ser substituído em um show na Austrália. O grupo chegou ao final do ano exausto após quase dois anos de trabalho frenético, mas intensamente proveitoso. O U2 agora era uma nova banda, um novo conceito...

1 - Um novo EP... que vira LP


O U2 aproveitou suas merecidas folgas no início de 1993 para entrarem em estúdio. The Edge se lembra que eles tiveram a idéia de gravarem quatro músicas para um EP em edição limitada para os fãs. Assim, entraram no Factory Studio de Dublin e começaram a labuta. Mas Bono achou um desperdício gastar tanta energia com um EP e sugeriu um novo disco, o que causou um certo arrepio em todos: será que o U2 ainda sabia gravar um disco em um curto espaço de tempo ou teriam se tornado escravos dos grande orçamentos e anos de produção? O espaço seria apenas de três meses.

E Paul McGuinness apoiou sensivelmente a idéia por uma razão estratégica: o antigo contrato do U2 com a Island (que era agora da Polygram) estava expirando e um novo produto nas mãos, muito antes do previsto pela gravadora, colocaria McGuinness em uma posição estratégica, já que teriam um poder de barganha muito maior com ele. Ou será que a Polygram iria deixar o U2 escapar tendo um novo disco para ser lançado imediatamente?

O conceito estava todo na cabeça do grupo e mais uma vez convidaram Brian Eno para a produção, ao lado do engenheiro Flood.

Mas como o tempo era pouco, eles seriam obrigados a enfrentar uma longa e cansativa maratona dentro do estúdio. Bono já estava trabalhando há tempos em novas canções, especialmente em uma para Frank Sinatra. E Frank seria um tema recorrente ao grupo e ao vocalista ainda em 1993.

2 - Zooropa


Bono sonhava em entregar uma canção à Sinatra batizada "Two Shots of Happy, One Shot of Sad". Mas desta vez ele não deseja cometer o mesmo erro de anos atrás, quando escreveu uma canção para Willie Nelson, fato relevado em uma entrevista e, sem sequer, avisar a Nelson. Isso causou um constrangimento ao vocalista do U2.

Enquanto isso, Bono escrevia uma letra com o nome provisório de "Sinatra". Aos poucos, ela vai se transformando até ganhar o definitivo título de "Stay" com Faraway So Close!" sendo acrescentado já que seria utilizada no filme de mesmo nome do cineasta alemão Wim Wenders. Era uma das primeiras vezes que Bono escrevia uma canção tendo em mente uma mulher.

O problema é que Brian Eno logo teve que deixar a produção, pois já havia se comprometido com outro projeto. Mas Eno voltou para o final e ficou espantado com a evolução das canções. Eno disse, à época, que Bono é uma espécie de "Maria Teresa das canções abandonadas": "é impressionante como ele aproveita coisas que escreveu anos atrás. Parece que ele nunca joga nada fora. Tudo que ele produz ao longo dos anos fica em sua cabeça e de repente, ele conecta algo e escreve em minutos o estava congelado há anos."

Quem dá mais algumas dicas sobre como a banda trabalha é o técnico de guitarra de Edge, Dallas: "Edge parece que nunca vai embora nesses dias. Eles chegam ao estúdio sem nada e começam a tocar e você acha que nada está acontecendo, quando de repente, uma canção aparece! E o mais incrível é que ela está quando pronta, eles vão em outra direção, como Bono cantando outra melodia a ponto de você se perguntar 'o que esses idiotas estão fazendo? a canção estava praticamente pronta!'. Mas aí você percebe que vem uma outra e ainda mais poderosa. É impressionante."

Muitas canções surgiram dessa maneira e uma delas causou uma certa tensão interna entre Bono, Brian Eno e os demais integrantes: "The Wanderer".

Bono conta que escreveu a canção inspirada no livro bíblico Eclesiástes. A história conta a vida de um homem que largou família e tudo mais para encontrar Deus e que percebe que os homens usam o nome 'Deus' em vão: "eles falam do Reino de Deus, mas não o querem lá". Bono tinha feito a letra especialmente para Cash, que foi à Dublin durantes as gravações. Bono ficou deliciado com a maneira com a qual Cash a gravou. Mas Flood e Eno não estavam tão felizes. Eles temiam que a forte e presença e carisma de Cash na faixa que encerraria o disco encobrisse todo o disco e a própria banda.

Bono argumentava que vendo o Cash cantando sobre uma melodia distorcida "sob um céu atômico" seria o final perfeito para um álbum desconcertante. Ao final, o cantor consegue convencer todos, especialmente Eno, que confessa: "era muito difícil eu dizer não quando participei pouco do processo, funcionando mais como um conselheiro. E admito que Bono estava certo, embora eu ainda preferisse a versão com ele cantando."

Outras canções também eram desconcertantes: "Babyface" insinuava levemente com pedofilia; "Daddy's Gonna Pay For Your Crashed Car", "First Time" e a mais bizarra de todas: "Numb". Ela tinha o título de "Down All The Days" e não foi aproveitada durantes as gravações de Achtung Baby.

"Numb" não tem melodia, apenas ritmo. Bono tentou cantá-la, mas não conseguia encontrar o ponto. Foi quando Edge, o dono da letra, sugeriu que trabalhassem apenas o ritmo. E mais: ele seria a voz principal e Bono e Larry (!) fariam os vocais de fundo: "incrível, isso funcionou", disse um chocadíssimo Bono. Não só funcionou como foi a primeira canção de trabalho do novo disco.

O melhor dela, no entanto, é o vídeo em que The Edge fica imóvel declamando a letra enquanto várias situações bizarras acontecem ao seu lado. A idéia era que ele não demonstrasse nenhuma emoção, mesmo quando um pé foi colocado em sua face!

Mas se as gravações aconteceram em um ótimo clima, elas foram insanas. Isso porque elas se estenderam até julho, quando o grupo já estava em turnê na Europa.

O dia-a-dia do grupo era sair dos shows até 11 da noite, pegar um avião até Dublin, ir direto ao estúdio, gravar até o começo da manhã, dormir, voltar aos aeroportos, novos shows e quando tivesse um dia livre, revezavam-se em estúdio. "Foi uma loucura, mas foi uma loucura gostosa", garantiu Larry.

Uma canção particularmente emocionou Bono: "Lemon".

"Eu tenho poucas lembranças da minha mãe porque o meu pai nunca falava sobre ela depois que ela morreu. Um dia recebi um pacote pelo correio de um parente distante com um filme Super 8 com uma imagem dela, com uns 24 anos. Ela era linda, cintura fina e com cabelos negros como de uma cigana. O filme era em cores e parecia extraordinário. Era um casamento, onde ela era a dama de honra vestida em um lindo vestido cor de limão. Resolvi então cantar com minha voz de Fat Lady (Senhora Gorda), mas havia uma aspereza na letra. Havia duas coisas acontecendo, memória e perda, o retrato de uma garota em um vestido limão cintilante, que a deixava sexy e alegre e o fato de um homem se separar das coisas que ele ama. E Edge também vivia um drama pessoal, já que teve que sair de casa, pois estava se separando de Aislinn. Basicamente, 'Lemon' é sobre sair ou não de casa".

E, no dia 5 de julho de 1993, o mundo conhecia o novo disco da banda, Zooropa, que deixou os fãs e a crítica ainda mais surpresos. O disco vendeu 300 mil cópias em apenas uma semana no Reino Unido e foi número 1 em quase todos os países do planeta. Mas ainda havia mais surpresas, muito mais...

3 - Macphisto


Bono queria criar um novo personagem para a parte européia, alguém mais "europeu" e abandonar de vez o Mirror Ball Man.

The Edge conta que a idéia surgiu quando ele e Bono foram à Hamburgo participar de um festival teatral contra o racismo, um período extremamente difícil para os alemães, já que a reunificação tinha acontecido pouco tempo antes e a tensão era evidente. Após assistirem The Black Rider, em que um personagem chamado Pegleg faz acordo com o Diabo, os dois tiveram a idéia de extrapolar isso.

Conversando com Gavin Friday, Bono ouviu a sugestão de que deveria usar chifres vermelhos. Edge disse também que o visual definitivo aconteceu quando viram um personagem andando pelas ruas de Madri, um homem já de idade, vestido de forma impecável e acenando para um público imaginário. Assim, o novo personagem usaia um terno dourado, sapatos plataformas, um antigo pop star. Bono disse que assim que vestiu as roupas, sua voz mudou e começou a falar de maneira estranha. "Foi muito difícil abandonar as roupas e Macphisto depois, confesso."

Quando Zooropa saiu, estranhamente não foi tocado em palco. Com arranjos complexos e sem tempo de ensaiar, o grupo foi lentamente apresentando as canções em palco. O disco chegou ser tocado integralmente nos shows finais da excursão, em Tóquio, com exceção de "The Wanderer" (por motivos óbvios) e "Daddy's Gonna Pay Your Crashed Car".

Zooropa rendeu excelentes dividendos financeiros, já que a Polygram se viu numa posição difícil, com o U2 tendo seu contrato acabado e com um novo disco pronto. Assim, os dois lados chegaram a um novo termo que tornou o U2 a banda mais rica do planeta. Embora as cifras não sejam confirmadas, estima-se que a banda fechou um contrato da ordem de US$ 200 milhões.

Mas, para Bono havia ainda um sonho interrompido: Frank Sinatra...

4 - Frank Sinatra


O mundo ficou em polvorosa quando "Ol' Blue Eye" anunciou que voltaria a gravar após 10 anos de ausência. A idéia era fazer um disco de duetos, com cantores e cantoras de vários estilos. O álbum se chamaria Duets e alcançaria o primeiro lugar em todos os cantos do planeta.

Bono havia sido convidado para contracenar com Sinatra na clássica "I've Got You Under My Skin", de Cole Porter. Sinatra estava com 77 anos de idade e começava a apresentar problemas de senilidade. Bono gravou sua parte, ao lado do produtor Phil Ramone, em Dublin e causou leve consternação no staff de Sinatra ao mudar levemente a letra, cantando "você sabe, seu velho tolo, você nunca poderá ganhar", ao invés de "você não sabe, seu tolo, você nunca poderá ganhar". Imediatamente a gravadora sugeriu que se fizesse um clip com os dois, experiência que Bono define como uma grande loucura.

Bono e Sinatra

O vídeo seria gravado em um bar de Palm Springs, um dos preferidos de Sinatra e seria dirigido por Kevin Godley. Bono tinha apenas que entrar no bar e ao ver seu velho companheiro Sinatra, ir cumprimentá-lo. Porém, Frank teve uma crise de pânico. Godley parou as filmagens e deixou Frank se acalmar um pouco. No entanto, o velho mito da música ficou mais confuso ainda e começou a berrar por seus empregados até ser levado embora.

Dias depois, Frank ligou para Bono pedindo desculpas e justificando-se dizendo que não gostava de fazer várias tomadas de uma cena. Acabaram combinando nova filmagem, desta vez no banco de trás da limusine de Sinatra. Nesse dia, eles almoçaram juntos e Bono cantou "Two Shots of Happy, One Shot of Sad", para Sinatra. Infelizmente, ele jamais chegou a gravá-la.

Os dois voltariam a se encontrar mais uma vez ainda, na festa do Grammy, que no entanto, não cabe aqui, agora. E depois do intervalo da turnê, era a hora de voltar ao batente...

5 - ZOO TV


Macphisto possuía também o hábito de ligar para personalidades dos países em que estavam tocando. Um dos momentos mais marcantes foi quando, em Londres, ligou para o escritor Salman Rushdie, o autor dos livros Os Versos Satânicos que causou irritação aos muçulmanos e uma ameaça de morte ao escritor.

E Rushdie surpreendeu ainda mais ao aparecer no palco do estádio de Wembley durante a apresentação. O único a lamentar o ocorrido foi Paul McGuinness já que o show estava sendo transmitido via rádio para vários países. McGuinness revelou que 10 das 310 milhões de pessoas que estavam ouvindo a apresentação, desligaram ao saberem que o escritor havia adentrado o palco.

E Macphisto não foi a única novidade do grupo. Um fato muito marcante foi a participação do jovem diretor norte-americano Bill Carter nos shows.

Bill havia passado alguns meses na Europa filmando. Ao voltar para a Europa resolveu, junto com sua namorada Corrina, se mudar para o México. Uma ligação sobre um possível emprego em Los Angeles o obrigou a mudar os planos por alguns dias. Enquanto voava, Corrina morria em um acidente de trânsito com a van de Bill. A notícia o devastou e Bill acabou indo para Sarajevo, um local onde a dor era grande, tão grande quanto ele sentia. E Bill ficou lá por seis meses.

O que ele desejava era fazer uma entrevista com o U2 quando eles estivessem em Verona, no dia 3 de julho para a Radio Televizija da Bósnia-Herzegovínia. "A televisão bósnia, com base em Sarajevo, é está muito interessada em fazer uma entrevista com os membros do U2. Nós sabemos que o grupo estará no dia 3 de julho, em Verona, Itália, e achamos que é uma oportunidade perfeita para a entrevista. Verona é um dos concertos da Europa que terá uma grande audiência na ex-Iugoslávia, já que é o único concerto que tem ingressos vendidos por aqui. Sarajevo, na antiga Iugoslávia, era o centro de artes, cultura e rock and roll. Ainda estamos tentando manter viva a cena artística, mas a falta de criatividade atual se dá pelos óbvios problemas físicos e de informações restritas."

O grupo aceitou dar a entrevista e dias depois, Bill Carter e seu amigo Aplon falaram com o grupo antes de subirem ao palco. A entrevista acabou com Bono sendo convidado por Bill a conhecer Sarajevo, convite este que deixou Bono muito interessado. Durante o show, ele dedicou "One" às pessoas de Sarajevo.

O show teve um aspecto emocional muito forte, com Macphisto tentando, sem sucesso, ligar para o Papa João Paulo II no Vaticano. Aliás, Macphisto rodou um filme promocional da turnê nas ruas do Vaticano, espantando os pombos. Mas Sarajevo não era esquecida por Bono...

6 - Sarajevo


Bono não apenas não se esqueceu de Sarajevo, como começou uma campanha interna para levar o grupo lá e fazer um show. O primeiro passo foi convencer os demais membros, o que conseguiu. O problema seria convencer Paul McGuinness e toda equipe técnica a fazer o mesmo. Sem contar nos imensos problemas burocráticos que teriam ao tentar fazer um show de rock num país em guerra civil.


McGuinness não deu bola no início para tal especulação, mas à medida que Bono começava a cavucar mais e mais querendo saber até detalhes diplomáticos, Paul o chamou para uma conversa séria e explicou o porquê não iriam até Sarajevo: "seria uma irresponsabilidade imensa se eu aceitasse isso. Estaríamos colocando todas as pessoas que trabalham conosco em risco, bem como o público presente. Eles estão no meio de uma guerra civil e por mais que eu seja solidário com a causa, jamais colocarei qualquer vida em risco, por menor que seja, por causa de um show". Ponto final. Bono perdeu. Na verdade, a derrota já estava anunciada a ele quando Bill ligou dizendo que os habitantes da cidade não queriam o U2 lá, pois eles acham que a banda pode ajudá-los, mas não estando lá.

Então já que o U2 não vai até Sarajevo, Sarajevo vem até o U2... por satélite! A idéia era tão simples, quanto complexa e genial: Bill Carter faria entradas através via satélite durante as apresentações, falando da situação local e trazendo depoimento das pessoas.

A primeira tentativa aconteceu no show de Marselha, em 14 de julho. Mas o satélite não estava disponível e Macphisto conseguiu trazer Bill apenas ao telefone.

Bill tentava desesperadamente convencer a Europe Broadcast Union a lhe ceder um satélite por alguns minutos durante algumas noites. Tudo acabou sendo resolvido, quando alguns cheques emitidos por Paul McGuinness começaram a fazer efeito. O problema é que Bill precisaria atravessar uma região dentro da Bósnia com atiradores de elite para chegar à estação de televisão em Sarajevo para fazer a transmissão.

No dia 17 de julho, em Bolonha, o público conseguiu ver alguns depoimentos dos habitantes de Sarajevo. Após emocionante contato, Bono foi ao palco B e fez uma comovente versão de "Satellite of Love", com Lou Reed no telão. O link com Bill segue mais alguns minutos, com Bono aplaudindo a coragem do povo e criticando a União Européia por fazer muito pouco pela questão. O momento mais emocionante foi quando Bill trouxe Vlado, que foi separado de sua esposa há 17 meses e que vivia, curiosamente, em Bolonha.

Enquanto o U2 toca "Bad", Bill e seus amigos entram no carro e saem correndo dos tiros que acertam o veículo. O contato entre os dois duraria mais de 10 shows, sendo que o de 12 de agosto, em Wembley, é o primeiro em que o link fica mais estável.

A banda se mete em uma grande polêmica com vários políticos criticando abertamente a atitude do grupo, dando a entender que eles não estão fazendo nada e que a situação política da antiga Iugoslávia é fácil de ser resolvida. "Eu gosto da confusão. Acho saudável você quebrar protocolos e mostrar um outro lado, proibido, censurado. Que digam que isso é oportunismo barato, de gosto duvidoso, que quero banalizar a situação ou me tornar uma celebridade. Eu acho importante darmos voz a essas pessoas".

No entanto, eles resolvem encerrar as transmissões após os quatro shows no estádio de Wembley e trazer Bill Carter para os shows finais da parte européia, em Dublin, em uma turnê de quase 4 meses e 44 shows.

Tudo seria mostrado de forma mais crua em 1994, quando Bill lançou o documentário Miss Sarajevo, com 26 minutos, co-produzido por Bono.

A turnê encerra justamente quando Numb é lançado em single. E pela primeira vez o U2 lança um single não em CD, mas em VHS. Em novembro é a vez do single "Stay (Faraway, So Close!)" que traz a versão de "I've Got You Under My Skin", com Frank Sinatra, que também aparece na capa.

E no meio da polêmica, havia um outro problema: Adam Clayton.

7 - Adam


O baixista teve 1993 como um ano inesquecível e recheado de boas e más notícias. A primeira foi o namoro com a top model Naomi Campbell, antiga paixão do baixista.

Bono havia ficado amigo de várias top models após aparecer na capa da revista Vogue e sempre soube da queda do baixista pela esquentada modelo. Assim, arrumou um jeito de se conhecer. E os dois realmente começaram a namorar sério. Adam começou a virar uma central de boatos e a imprensa publicava que os dois iriam se casar, coisa que não passava pela cabeça do músico, ainda.

Adam também começava a mostrar alguns problemas de temperamento. Após uma noite na farra com bebidas, causou constrangimento em uma cena em hotel londrino. Após brigar com Naomi, um enfurecido Adam mandou vir as mais caras prostitutas da cidade e pagou todas com seu cartão de crédito. O caos foi enorme.

E o problema ficou ainda maior quando o grupo partiu para a parte final da excursão, Zoomerang, em novembro e dezembro. Enquanto estavam na Austrália, é lançado lá o single de "Lemon", que teria ao longo dos meses várias versões remixes

Seriam 6 shows na Austrália, dois na Nova Zelândia e dois no Japão. Adam causou um incidente sério quando chegou de ressaca e sem condições de subir ao palco. Pela primeira vez, o U2 teve que improvisar colocando o roadie que tomava conta do instrumento de Adam em seu lugar. Foi uma noite tensa.

O show teria televisionado para vários países e a banda estava preocupada, pois era a primeira vez que um membro não estaria presente. The Edge, Larry, Bono e Paul chamaram Dallas, o técnico de Edge e perguntaram se Stuart Morgan poderia fazer o show. Não havia possibilidades de cancelamento. Dallas era o foco central dos quatro, que ficaram aliviados quando Dallas deu o sinal de positivo. Nervoso, Stuart cometeu pequenos erros, e no final da apresentação teve seu braço levantado por Bono e aclamado como herói. Enquanto isso, Adam Clayton dividia-se entre a dor física e na consciência.

O grupo seguiu para Nova Zelândia, onde não pisavam desde a morte do roadie Greg Carroll, em 1986, que foi homenageado com a canção "One Tril Hill", de The Joshua Tree. Quando o U2 pisou lá em 1987 foram tratados como deuses. Agora era apenas uma obrigação profissional.

O grupo encerrou o ano com dois shows em Tóquio e encerrando um ano cheio de acontecimentos e 54 shows pela Europa, Oceania e Ásia.

O grupo faria um retiro no ano seguinte e ficaria longe dos palcos, mas não dos estúdios. O ano de 1994 seria fundamental para o U2 saber os passos que seriam dados em um futuro próximo.

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Tempo de descanso: 1994-1995


Trilhas sonoras como a de In The Name of the Father, Batman e muitas outras seriam uma constante nos anos de "descanso" do U2, aqueles em que os membros viveriam como "pessoas normais". Era a época em que Bono adquiriu uma propriedade na França; de Edge passar um tempo a mais com o filhos e de Larry e Adam se mandarem para Nova York para estudarem música e relaxarem. Porém, estava claro que ninguém conseguiria ficar muito tempo longe do batente. E nem queriam...

1 - Bono e Sinatra novamente


O ano de 1994 começou com Bono recebendo diversos roteiros de cinema. Ele recusou todos, mas não uma proposta única: fazer um discurso para Frank Sinatra na noite do Grammy.

Bono fez um discurso particularmente brilhante e segundos após o término, Frank Sinatra cumprimentou o cantor visivelmente emocionado e quase chorando. O que se seguiu foi um dos momentos mais constrangedores na carreira de Sinatra. Profundamente tocado, o mito começou a falar mais do que necessário. Enquanto isso, no backstage, as pessoas imploravam para que Bono subisse ao palco e o retirasse, o que ele negou: "deixe ele falar, é Frank Sinatra, por Deus!". Mas o insensível produtor ousou cortar o microfone e chamar os comerciais enquanto, deixando todos chocados. Por causa disso, houve um protesto geral de fãs, anunciantes e da audiência que ficaram revoltados com o tratamento ao maior cantor da América.

Bono e Sinatra

Bono, porém, saiu-se bem e chegou a ganhar um relógio de ouro de Sinatra, como agradecimento. E agora viriam as...

2 - Férias


"Vamos relaxar, certo?"

Esse era a promessa que os quatro integrantes do U2 haviam feito entre si. Nada de estresse em 1994, apenas viver um pouco. Dessa forma, The Edge e Bono começaram a arrumar uma imensa propriedade que haviam comprado juntos, em 1992, no sul da França. Bono havia sugerido que os todos a comprassem, mas apenas Edge topou.

O guitarrista dizia que como estava começando uma nova etapa de sua vida, após o final de seu casamento, achou uma boa idéia. A vida boa no sul da França serviu para que se aproximassem de suas famílias, cuidassem dos filhos, ficassem com os amigos, fizessem coisas normais, como ir à padaria, andar na praia, etc..

Enquanto Bono e Edge tinham vidas caseiras, Adam e Larry resolveram fugir de Dublin também. Mas em direção à Nova York.

Foi Adam que sugeriu fugirem da Irlanda. Após o péssimo final de ano em 1993, o baixista estava determinado a parar de beber, enquanto Larry estava longe para deixar a pressão de lado e cuidar mais de projetos pessoais e desejava ter algumas aulas de bateria e aprender novas técnicas e aprender mais sobre programação. Adam gostou da idéia e da chance de estudar mais também sobre baixo e até de canto! Durante as aulas de canto, conheceu um professor de baixo, Patrick Pfeifer, que havia escrito um livro com um sugestivo título: "Bass Playing for Dummies (Tocando Baixo para Burros)".

Larry conheceu um baterista chamado David Beal e por ele foi parar em Gary Schaffe, em Boston, que era chamado de "doutor de baterista". Segundo Larry, a função de Schaffe era arrumar a postura dos bateristas que chegavam arrebentados e ensiná-los a tocarem com menos esforço físico. Foi ali que Adam e Larry começaram a ensaiar o tema do filme Missão Impossível, que faria um tremendo sucesso em 1996.

Nessa época, Bono e Edge começaram a pensar em um novo conceito para um álbum futuro, mais experimental e queriam que construir um álbum inteiro de trilhas-sonoras com Brian Eno. Bono queria escrever um disco inteiro com ele, como Bowie e Talking Heads haviam feito no passado.

A idéia era boa em tese, mas não em prática. Paul McGuinness não gostava da idéia de Eno ser considerado um membro do U2, especialmente porque Eno era uma pessoa difícil. Não se pode esquecer que ele quase causou a ruptura completa dos Talking Heads, que precisaram parar por quase dois anos devido às brigas internas. E quando voltaram, em 1982, havia um rígido acordo: sem Brian Eno. Bowie também havia tido imensas rusgas com ele e os dois só voltaram a se encontrar em 1995, uma década e meia depois, no álbum Outsider.

Segundo Paul, "sempre houve um pouco de tensão entre o U2 e Brian Eno porque Brian se considera uma força criativa. Eu penso que ele acha frustrante que dentro dos parâmetros que nós estabelecemos, ele não é um compositor, ele é um dos produtores e vai para o estúdio com tudo o que ele possui, seu talento como músico, seu julgamento e sua voz. E se Brian sopra alguma coisa que termina em um álbum, então é isso que os produtores devem fazer. Para isto eles recebem honorários e uma porcentagem do lucro, eles participam do sucesso do álbum assim como o artista. A questão dos créditos e royalties das composições tem sido debatida durante anos. Nós temos um processo colaborativo na montagem das músicas, isto foi estabelecido desde o início, mas eu não poderia permitir uma situação em que Brian Eno fizesse mais do que um membro do U2. Brian é um gênio, mas a banda também é. Eu acho que é um privilégio e aprendizado trabalhar com o U2 como produtor. Era contra esse contexto que se o U2 decidisse montar um álbum em que Brian fosse um integrante completo, não seria um álbum do U2, seria um projeto a parte."

Enquanto começavam a discutir o projeto, Bono havia trilhado um outro caminho...

3 - Em nome do pai


Bono não havia totalmente parar de trabalho. Havia um projeto estava engajado de corpo e alma: a trilha-sonora do filme In The Name of the Father.

Bono, Maurice Seezer e Gavin Friday assinaram a trilha-sonora do filme que fala sobre os quatro jovens acusados injustamente de terem matados civis ao colocarem uma bomba em um pub de Londres. Fiz uma coluna sobre o tema.

O filme era dirigido por Jim Sheridan e tocava de certa maneira, além de render algumas histórias inusitadas.

Certa vez, Sheridan viajava com sua equipe de efeitos especiais de trem para Londres e discutiam o problema de explodirem uma bomba em determinado local e horário. Irritado, o diretor berrou que queria a bomba explodindo de qualquer jeito, para choque dos demais passageiros, pois pensava que fosse um membro do IRA...

Com a participação de Sinéad O'Connor em algumas faixas, especialmente na espetacular "You Made Me The Thief Of Your Heart", a trilha rendeu mais do que simples dividendos para o filme e os compositores; mostrava também outras possibilidades sonoras para Bono.

A parceria com Gavim Friday foi revigorante, afinal era seu melhor amigo desde moleque. Gavin relembra que apesar de ser um eterno trapalhão e capaz de esquecer tudo nos locais mais improváveis, poucas pessoas trabalham tão duro quanto Bono.

"A vida dele é um completo caos, o telefone toca todo segundo, é um desespero. São as mais variadas pessoas falando de diversos assuntos. Seus horários são incertos, mas há uma certa mágica quando ele começa a escrever."

Os dois participaram do vídeo promocional da faixa-título que abria o disco, que não alcançou um grande sucesso comercial, ficando apenas na 46ª posição.

"Foi um projeto excelente de se fazer e voltamos em alguns aspectos de nossa infância. E acho que Bono usou muitas idéias para os próximos projetos do U2." E os projetos continuavam...

4 - Batman


Férias dos palcos, mas não do estúdio. Após recusar um papel no novo filme Batman, o U2 cedeu uma música para a trilha-sonora do filme: "Hold Me, Thrill Me, Kiss Me, Kill Me". A música havia sido gravada durante o período de Zooropa e sofreu pequenas mudanças para entrar na trilha-sonora do filme Batman Forever e alcançou o segundo lugar na parada.

O mais curioso foi o vídeo. Bono havia se recusado a participar da película como Macphisto, mas no vídeo aparecia não só com ele e The Fly, sendo personagem de desenho animado.

5 - Passengers


Bono e Edge discutiam o projeto com Brian Eno. No início, iriam fazer a trilha-sonora do filme The Pillow Book, de Peter Greenaways, mas o projeto não andou. Eno sugeriu então que fizessem música livremente para filmes imaginários, aparecendo com esboço de roteiros e nomes de filmes. O projeto, porém, era bem diferente de qualquer disco do U2 e por isso foi formado um novo grupo, Passengers.

Nesse meio-ponto, Adam e Larry haviam voltado de Nova York, em ponto de bala e excitados para colocarem em prática o que haviam aprendido.

Mas, como McGuinness temia, as gravações foram tensas. Eno se mostrou decepcionado com a falta de comprometimento dos integrantes, enquanto alguns reclamavam das idéias de Eno, especialmente Larry, que odeia o disco. Edge, por outro lado, amou o disco pelo seu caráter experimental, e na faixa "Your Blue Room", pela primeira vez se ouve a voz de Adam Clayton, embora seja apenas falando e não cantando.

Assim, é lançado Passengers: Original Soundtracks 1, em novembro de 1995. E apesar de não ter sido um imenso sucesso comercial ficou marcado por um simples detalhe...

6 - Luciano Pavarotti


Se há algo para ser lembrado no disco é a canção "Miss Sarajevo". O tenor italiano Luciano Pavarotti era grande fã do U2 e sabia que o pai de Bono, era grande fã seu. Dessa maneira começou a implorar para que Bono escrevesse uma canção especialmente para ele.

Nas palavras de Bono: "Foi uma viagem escrever para Pavarotti. Para entrar no estado de espírito ideal, eu incorporava meu pai cantando no chuveiro incorporando Pavarotti. Ele estava pedindo uma música. Na verdade pedir é um eufemismo. Ele estava ranzinza, rogando pragas pela casa. Ele me disse que se eu não compusesse uma canção para ele, Deus seria muito impiedoso comigo. E quando eu protestava dizendo que estávamos no meio do nosso álbum, ele falava, ‘Eu vou falar com Deus para ele conversar com você. É páscoa. Da próxima vez que eu ligar para você, você vai ter uma música’. Um dos melhores lutadores de queda de braço do século. A música foi a nossa resposta para os atos surreais de desobediência que aconteceram durante o cerco policial em Sarajevo. Uma mulher se recusou a ir para o refúgio e costumava tocar piano durante o bombardeio. Outra mulher organizou um concurso de beleza. ‘Nós vamos derrotá–los com nossos batons e saltos’, ela disse. Todas as garotas mais bonitas de Sarajevo subiram no palco com faixas dizendo ‘Vocês realmente querem nos matar?’ Isto era puro desafio e merecia ser celebrado com uma música."

Bono e Pavarotti

A música teve uma audiência mundial no concerto Pavarotti & Friends, que o tenor organizava anualmente em sua cidade natal, em Modena, no dia 12 de setembro de 1995. Na oportunidade, Bono e Edge subiram ao palco com o tenor e cantaram a música.

Bono disse que a música tinha um certo surrealismo e alguma influência dadaísta: "em plena guerra civil, as mulheres de Sarajevo organizaram um concurso de beleza e desfilavam com cartazes dizendo 'você querem realmente nos matar?'. Era um tipo de desafio incrível e eu queria fazer uma música sobre isso."

O concerto todo acabou sendo filmado e lançado em CD e vídeo, em março de 1996, com o nome Together For the Children of Bosnia e o dinheiro doado integralmente para caridade.

Dessa maneira os anos de descanso e repouso do grupo terminaram. Bem calmos, como podem ver...

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